Pesadelo: Johann Heinrich Füssli
Nesta última década, Porto Alegre brigou com o partido dos trabalhadores. Eu me senti muito mal, quando após esperar 20 anos para ver o socialismo no poder, o socialismo real do PT foi o que vimos. Em um caminho curto, a razão esta com Porto Alegre: não se tolera mentira e roubo. Como dizia uma senhora de idade: quem mente, rouba. E quem rouba, mata. O prefeito de Sto André, que o diga, provavelmente morto pelo José Dirceu. Nós gaúchos, não gostamos da corrupção dos partidos tradicionais (todos menos o PSOL e o PT). Mas nos doeu muito mais a desilusão com a “santidade” vendida pelo PT. E não votamos mais neles, nem para vereador, nem para prefeito, nem para coisa alguma.
Porém nossa “desilusão com a ilusão” nos custou caro. Não sumiram os vereadores, apenas pelo motivo que os mais idealistas ou socialista não receberam nosso voto. Na votação na câmara do dia 21/12/09 para decidir se a área do cais seria entregue para a Câmara dos diretores lojistas fazer um shoping ou se continuaria sendo do povo de Porto Alegre, apenas cinco dos 34 votos foram pela população: os outros 29 votos foram por doar o cais para as construtoras erigirem imensos espigões privados e um shoping, contrariando o direito de posse da população sobre a área. O curioso é que os votos por nós, pela população, foram apenas do PT e do PSOL. Votaram com a população os vereadores Carlos Todeschini (PT), Sofia Cavedon (PT), Maria Celeste (PT), Lúcio Barcelos (PSOL) e Fernanda Melchionna (PSOL).
Uma vitória assim tão esmagadora dos interesses das construtoras dentro de nossa câmara é um alerta sobre a representatividade real de nosso legislativo municipal. Esta legislação que ai esta –e também o prefeito Fogaça- tem a obsessão do concreto. Espigões na Lima e Silva, densidade de construções, plano diretor, prédios no Estaleiro e prédios no cais são o legado desta legislatura com poucos socialistas e muitos partidos tradicionais. Não temos nenhum vereador do partido verde, e Beto Moesch, o vereador do meio ambiente, aprovou a construção de um prédio de 33 andares dentro do rio, de um aterro do Guaíba, de um shoping de 10 andares encostado no gasômetro! É evidentemente um falso ecologista e perdeu nosso respeito.
Mas e agora, como ficamos com o PT e com o PSOL? Teria chegado a hora de uma reconciliação? Isso é muito difícil, é como num divórcio com difamação, estamos muito indignados com a infidelidade do PT, para sair perdoando assim. Então vamos votar no PSOL? Bem, isto também não é fácil. Então vamos votar nulo: por estas e por outras nosso cais Mauá nos foi tirado e entregue para os tubarões das empreiteiras. Acho que, se nos sentimos muito sozinhos e desprotegidos sem o PT, também não queremos voltar para eles.
Não apenas pelo problema moral (roubo, mensalão, afastamento do ideário socialista, lucro do sistema financeiro) dos petistas no poder. Em especial não gostamos da postura um tanto arrogante destes políticos no poder. Parece que o DNA stalinista é forte, e suas posições anti-dialogo são muito impopulares. O problema é que sem eles o capitalismo faz a festa e –como vemos no governo YEDA- a corrupção também. Sem PSOL e sem PT – e eu diria, sem o PV- as pessoas (em oposição aos interesses financeiros do capital) não tem representação.
Portanto, o problema esta posto: com os socialistas (PT e PSOL) estamos fadados a um desrespeito pelo saber, pela tecnologia, estamos fadados a força do sindicalismo, há uma institucionalização da pobreza (bolsas de todo gênero e subsídio em universidades privadas). O “desenvolvimentalismo” que não faz concessões ao meio ambiente também é uma marca do petismo real. A saída de Marina Silva do PT foi justamente pela determinação anti-ecológica da ministra Dilma, que agora se nos apresenta como opção do petismo. Sobretudo estamos perigosamente validando um risco não desprezível anti-democrático: um risco de apoio ao pavoroso Ahmadinejad e ao Hugo Chaves, que bem podem virar projetos nacionais aqui no Brasil. O PT não tem uma posição clara de repúdio a estes dois projetos, o que é muito temerário.
Por outro lado, sem eles (PT e PSOL) temos o que vemos ai: a festa arrogante anti-republicana dos corruptos, o capital que paga as campanhas eleitorais muito bem atendido, o povo sem vez e sem voz. Sem os socialistas vamos doar o pré-sal para a Shell. Sem os socialistas, os partidos tradicionais seguem a tradição: o uso do poder para assaltar o dinheiro público, em cotas de 75% para si e 25% para os seus. É como diz o vereador Valter Nagelstein: “a aprovação do projeto cais Maua fechou o ano de 2009 com chave de ouro”. Imagino que ele esteja sintetizando nesta frase, a clara vitória em 2009 da aprovação dos 12 prédios na orla: o da OSPA, dois ou três no cais, três no estádio do Beira Rio, um no Shoping Barra e um no Shoping Praia de Belas, seis no estaleiro Só. Acho que o vereador foi modesto: não falamos de uma chave de ouro. Se contarmos o número de salas que sua gestão aprovou dentro do parque Marinha e dentro do rio, falariamos em centenas de milhares de chaves de ouro, todas a disposição para visitação na Goldztein Cyrela!
Você decide em quem vai votar daqui para frente: no similar nacional do stalinismo neo-Chavista, e estará entregando sua liberdade para ter um pouco de nacionalismo e defesa da coisa pública, ou nos similares do Sr Nagelstein, o das chaves de ouro, e estará entregando a máquina pública par o uso da iniciativa privada. Só não vote mais em Beto Moesch, o ecologista de Dubai, que aprova prédios de 33 andares, desde que pintados de um tom pastel, para agredir menos o ambiente. (Juro, é emenda dele que o paisagismo deste projeto Blade Runner seja feito só com plantas nativas:seguramente para garantir o butiá da cachaça dos ricos freqüentadores do Hotel Hilton em palafitas). A escolha não será simples.
























